(Des)apegos

14:57


"Chega aí, loira."
Helena Martins colocava um braço protetor em volta de sua irmã mais nova, levando-a para longe dos rostos que costumava conhecer tão bem. Estavam todos mais velhos, cansados, destruídos pela exaustiva jornada de trabalho que no passado juravam nunca ter que participar. Eram eles que a levavam para os lugares mais bizarros e a apresentavam para as pessoas mais nojentas. Agora, no meio de todas essas figuras estranhas de novo, lembrava-se o porquê de ter jurado nunca mais voltar e perguntava-se o que estava fazendo ali.
A resposta era simples : véspera da véspera de Ano Novo. Era uma tradição dos jovens do condomínio em que nasceu e foi criada, já que no Ano Novo em si, todos estariam com a família. Acontecia na maior casa dos arredores, onde os donos de uma rede de supermercados moravam. O filho mais velho deles era um festeiro nato, que se achava imune às responsabilidades e problemas da vida adulta. Era inteligente mas sempre faltava as aulas, não foi surpresa quando decidiu não fazer faculdade e viver da vida boa dos pais. Mesmo destino que vários dos amigos de Helena, que se achavam bons demais para o sistema, e atualmente trabalhavam em empregos com cargas horárias absurdas e davam em cima de garotas bêbadas mais novas, como a que carregava nos braços agora.
A loira cambaleava o caminho todo para fora de casa e a mais velha já não aguentava mais seus lamentos de relacionamento. Fraca, Helena pensava, uns 3 drinks e parece à beira de um coma alcoólico. Seus pés estavam doloridos por causa do salto e ela podia jurar ter visto sua ex melhor amiga pegando o irmão de seu ex namorado atrás de um carro. O peso em seus ombros sumiu enquanto estava distraída e percebeu que sua irmã mais nova estava colocando os 3 drinks pra fora atrás de uma árvore. Ótimo, a morena estava quase xingando mentalmente, não sei como vou levar esse troço pra casa agora. 
"De longe, jurava que era a Vanessa."
Helena virou-se pra ver o dono da voz e disse :
"Ha! Até parece que a Srta. Desajustada Social estaria em um lugar desses. Você precisa parar de usar drogas, Rodrigo."
"A vida é uma droga, Helena." foi a resposta.
Era ele, Rodrigo. Os dois tiveram um relacionamento daquele tipo bate e volta que todos comentavam. Ele era 2 anos mais velho que ela e eles exalavam poder em todo lugar que iam. Eram valentões, os dois juntos e contra o mundo todo. Helena era a garota que todos queriam e temiam, com batom escuro e jaqueta de couro às 7 da manhã de uma segunda-feira, se metia em brigas por diversão e fingia ser mais forte do que era. Rodrigo era o cara que as garotas se tacavam em cima e os garotos escolhiam primeiro na hora de qualquer jogo, forte, alto e a definição de má influência. O casal se juntava para beber atrás da quadra, estavam em todas as festas e se agarravam em qualquer lugar. Todos olhavam quando os dois desciam da moto vermelha de Rodrigo, ambos tirando os capacetes e revelando a bagunça de cabelos pretos e olhar superior.
Mas não durou muito até as coisas mudarem. Foi em uma noite quente, um grupo de garotos fumava um baseado no meio do mato quando encontraram Helena e Theo juntos em um carro velho, bêbados ou drogados, um tocando o outro como se o mundo fosse acabar ali mesmo. Não demorou muito, mas tal fato virou notícia em toda a escola. Rodrigo ficou arrasado, frustado, com raiva, mas não podia fazer nada. Theo não era o tipo de pessoa com quem se mexia, e ia muito além de uma simples luta de socos entre adolescentes em uma rua abandonada. Ele tinha vinte e poucos anos e uma arma. A cidade inteira achava que ele já tinha matado uma dupla de jovens que o dedurou para polícia por tráfico de drogas. Os jovens nunca foram encontrados e não existiam provas suficientes para provar Theo culpado, então ele continuava lá. Foi assim que Rodrigo e Helena terminaram de vez e ela se mudou para outra cidade para fazer faculdade de Administração, deixando as memórias do relacionamento ali, enterradas no condomínio.
Mas agora, os olhos da garota não apresentavam o mesmo fogo de antes e sua aparência não intimidava mais ninguém, então Rodrigo se arriscou a continuar a conversa. "Preciso levar minha irmã pra casa" ela dizia, mas não interrompia o papo. Então duas horas depois, sentados no chão do parquinho infantil ali perto, os dois discutiam coisas do passado, relembrando loucuras e todas as vezes que poderiam ter ido pra cadeia. Helena, com a a cabeça da sua irmã em seu colo, que dormia pacificamente, passava seus dedos entre cabelos loiros pois não queria encarar os olhos do garoto e lembrar de todos os erros que cometeu. Na época, fez-se de forte, como se não ligasse para os sentimentos dele, mas bem no fundo, a culpa consumia sua alma. Todo fim de ano, quando voltava para a casa de seus pais em uma reunião de família, passava na frente da casa do moreno e olhava para a janela de seu quarto enquanto corria de manhã, pensando em quanto tempo já passou naquela cama de casal entre paredes cinzas e brancas, e se odiando mais um pouquinho. E tudo isso veio a tona quando tal pergunta escapou entre os lábios de Rodrigo :
"Por que diabos você tinha que acabar com tudo desse jeito?"
O coração de Helena ia sair pela boca, ela pensava. Mas em vez disso, foram palavras que começaram a sair, junto com lágrimas, sem parar para pensar : "Eu te amava, Rodrigo. Mas você me amava mil vezes mais e me doía pensar em como tudo podia acabar com a gente amarrado um ao outro em um casamento sem graça. Não ia durar pra sempre, nosso poder, nossa reputação. E eu não queria ficar aqui, no meio dessa desgraça toda. Eu precisava de algo diferente, especial. Eu precisava da adrenalina. E se tinha algo que eu, com minha mente perturbada de 17 anos precisava, era de alguém que ia me machucar e partir meu coração. Era a dor, uma dor que eu não sentia contigo. Eu o dedurei, sabia? Ele está na cadeia por minha causa. Chorei por dias, na verdade. Mas era isso que eu queria, as lágrimas. O problema é que você se apegou demais e eu não queria a responsabilidade de carregar todos os seus sentimentos. Eu queria minhas lágrimas, não as suas. Você era bom demais pra mim, Rodrigo. E eu não suportava isso, eu só queria transar, beber e sair sem me preocupar com outra pessoa. Era egoísta, mas era o que eu queria. E ainda quero, eu acho. Sou muito jovem para me preocupar com outros. Eu preciso cuidar da bagunça dentro de mim antes de arrumar a de qualquer um."
Com as mãos trêmulas, acendeu um cigarro, nervosa. Ele a encarava, analisando suas expressões. Segurou sua mão e a puxou para um beijo suave, lábios se encostando lentamente. Helena apoiava uma mão no ombro do garoto e segurava o cigarro com a outra, se inclinando pouco para não acordar a loira que dormia em seu colo. Nada importava mais, todas as histórias, todas as mágoas, todas as loucuras. O mundo havia evoluído e eles também. As bocas se separaram lentamente, dando espaço para uma busca de sentimentos no olhar um do outro. Ele segurou o pulso da morena para colocar o cigarro entre seus próprios lábios, e ela o encarava com curiosidade, distraída. O momento foi interrompido pelo alarme do celular da mais nova, que acordou com um susto. Estava na tela "véspera de ano novo, ligar pra Lili".
"Por quanto tempo eu dormi?" a loira perguntou.
"Uma eternidade." os dois riram.
"Vamos pra casa, Lena" respondeu a garota.
"Vamos."
Helena levantou-se, puxando sua irmã mais nova e apoiando-a em seus ombros. Esta tentou perguntar o que estava acontecendo, mas a morena não respondeu. Continuou andando para casa, sem olhar pra trás, afogada em pensamentos e novas sensações, adrenalina percorrendo todo seu corpo, como tanto precisava. Já em casa, deitada na cama de cima de uma beliche situada no quarto que as três irmãs um dia dividiram, via fotos antigas e ignorava os comentários de Vanessa sobre a noite de seu reencontro com Vinícius, aquele garoto que morava ali perto, mas sempre pareceu insignificante. Foi quando no topo da sua tela apareceu a seguinte mensagem :
rodrigo : 3hrs, amanhã, minha casa, sem sentimentos?
Dedos ansiosos digitavam :
helena : agora quem criou sentimentos foi eu

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